Polícia

Milton Leite é indiciado; polícia aponta PCC em empresas de ônibus de São Paulo

Investigação aponta possível influência da facção em 12 das 22 operadoras analisadas e pede prisão preventiva dos suspeitos; ex-presidente da Câmara nega envolvimento

Operao contra infiltrao do PCC em empresas de nibus mira Milton Leite em SP
Ex-presidente da Câmara Municipal de São Paulo, Milton Leite foi indiciado em investigação sobre a suposta infiltração do PCC no transporte coletivo
Foto: André Bueno – Rede Câmara

A Polícia Civil de São Paulo indiciou o ex-presidente da Câmara Municipal Milton Leite (União Brasil) por suspeita de envolvimento com organização criminosa no âmbito da Operação Vectura Corrupta, que investiga a infiltração do Primeiro Comando da Capital (PCC) no transporte público da capital paulista.

O relatório final da investigação foi encaminhado à Justiça na sexta-feira (6) e teve suas conclusões divulgadas neste sábado (7). Segundo os investigadores, a facção criminosa teria controle direto ou influência indireta sobre 12 das 22 empresas de ônibus analisadas no sistema de transporte coletivo de São Paulo.

O documento também aponta suspeitas de corrupção de agentes públicos, utilização de empresas para movimentação de recursos ilícitos e financiamento de campanhas eleitorais.

Milton Leite, que presidiu a Câmara Municipal de São Paulo durante seis anos, está preso temporariamente desde setembro. A Polícia Civil solicitou a conversão da prisão em preventiva, medida que depende de decisão judicial.

O ex-vereador nega qualquer vínculo com o PCC e rejeita as acusações de que teria participação oculta em empresas de ônibus investigadas.

PCC teria influência em mais da metade das empresas analisadas

Uma das principais conclusões do relatório policial diz respeito à possível extensão da atuação do PCC no transporte coletivo paulistano.

De acordo com a investigação, 12 das 22 empresas consideradas no levantamento estariam, em tese, sob controle ou influência da organização criminosa.

A polícia suspeita que a facção utilizava intermediários e pessoas que figuravam formalmente como responsáveis pelas empresas para ocultar os verdadeiros beneficiários dos negócios.

O esquema investigado também envolveria operações de compra e venda de ônibus, movimentação de recursos financeiros e possíveis interferências em contratos públicos.

A conclusão apresentada pela Polícia Civil ainda não representa uma decisão judicial definitiva. A presença de uma empresa nos documentos da investigação não comprova, isoladamente, que seus proprietários ou funcionários tenham cometido crimes.

Polícia aponta Milton Leite como suposto dono oculto da Transwolff

Milton Leite é apontado pelos investigadores como possível responsável de fato pela Transwolff, empresa que operou linhas de ônibus na Zona Sul de São Paulo.

A suspeita é sustentada por elementos reunidos durante a investigação, incluindo conversas extraídas de aparelhos eletrônicos apreendidos e depoimentos de policiais militares.

Segundo as apurações, o ex-presidente da Câmara teria influência sobre decisões relacionadas à operação de empresas do setor.

A Transwolff já havia sido alvo de investigação anterior sobre suspeitas de ligação com o crime organizado. A Prefeitura de São Paulo determinou uma intervenção na concessionária em 2024 e posteriormente encerrou seu contrato.

Milton Leite contesta a versão policial. Ele afirma não ser proprietário da Transwolff e nega ter exercido controle sobre a empresa.

A própria Transwolff também negou anteriormente que o ex-vereador tenha integrado seu quadro societário ou participado de sua administração.

Ex-presidente da SPTrans também aparece entre os investigados

A Operação Vectura Corrupta não se limita ao ex-presidente da Câmara Municipal.

Entre os nomes mencionados no relatório está Levi dos Santos Oliveira, ex-presidente da SPTrans, empresa municipal responsável pela gestão do sistema de ônibus da capital.

Os investigadores apuram possíveis contatos entre representantes de empresas de transporte, integrantes da facção criminosa e agentes públicos.

A suspeita é de que essas relações tenham sido utilizadas para favorecer interesses da organização criminosa dentro do setor.

A investigação também examina a possível participação de empresários e intermediários na movimentação de recursos e na administração de companhias.

As responsabilidades individuais ainda dependem de análise do Ministério Público e da Justiça.

Investigação também apura financiamento de campanhas eleitorais

Outro eixo da investigação envolve a suspeita de utilização de recursos ligados ao PCC para financiar candidaturas.

Os investigadores analisam possíveis conexões entre empresários, agentes políticos e pessoas apontadas como integrantes ou colaboradores da facção.

Parte das suspeitas está relacionada às eleições municipais de 2024, incluindo movimentações políticas em Praia Grande, na Baixada Santista.

A apuração busca identificar se recursos de origem criminosa foram direcionados a campanhas e se houve tentativas de ampliar a influência da organização sobre decisões da administração pública.

Até o momento, essas suspeitas devem ser tratadas como hipóteses investigativas, e não como fatos definitivamente comprovados pela Justiça.

Polícia pede prisão preventiva dos indiciados

Com a conclusão desta etapa do inquérito, a Polícia Civil encaminhou à Justiça pedidos de prisão preventiva relacionados aos investigados.

A prisão preventiva é uma medida cautelar que não possui prazo fixo previamente determinado, diferentemente da prisão temporária. Sua decretação depende da presença dos requisitos previstos na legislação.

Milton Leite está preso temporariamente desde 18 de setembro, quando se apresentou à polícia após a expedição de um mandado de prisão.

O relatório policial será submetido à análise das autoridades competentes, que deverão avaliar as provas reunidas e os próximos encaminhamentos do caso.

As investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro e a eventual participação de outras pessoas e empresas poderão continuar.

Defesa de Milton Leite nega acusações

Desde o início da Operação Vectura Corrupta, Milton Leite nega ter ligação com o PCC ou participação irregular em empresas de transporte.

O ex-vereador também rejeita a afirmação de que seria proprietário oculto da Transwolff.

Sua defesa contesta as suspeitas apresentadas pelos investigadores e sustenta que ele não cometeu as irregularidades atribuídas a ele.

O indiciamento representa uma conclusão da autoridade policial sobre a existência de indícios de participação em crimes. Não equivale a denúncia recebida pela Justiça nem a condenação criminal.

O caso seguirá sob análise do Ministério Público e do Poder Judiciário, responsáveis pelas próximas decisões processuais.

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Nivaldo Lima

Nivaldo Lima é jornalista com 31 anos de experiência, especializado na cobertura de política, segurança pública, trânsito e cotidiano.
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