Rodovias

Free Flow chega à Anchieta-Imigrantes, mas pedágio não terá redução

Ecovias diz que cobrança eletrônica não representa necessariamente redução de custos; concessionária não informou quanto gasta atualmente com as praças nem quanto custará operar o novo sistema

Quem utiliza o Sistema Anchieta-Imigrantes para viajar entre a Grande São Paulo e a Baixada Santista paga atualmente R$ 40,60 de pedágio. A tarifa, considerada a mais cara do Brasil em valor nominal para veículos de passeio, aumentou justamente no ano em que a concessionária prepara uma das maiores mudanças na forma de arrecadação desde o início da concessão: a substituição das tradicionais praças de pedágio pela cobrança eletrônica em fluxo livre.

Free Flow chega  Anchieta-Imigrantes mas pedgio no ter reduo
Pórtico do Free Flow na Rodovia dos Imigrantes: novo sistema substituirá a cobrança convencional nas praças de pedágio(Divulgação – Ecovias)

Desde 1º de julho de 2026, o valor passou de R$ 38,70 para R$ 40,60, alta de 4,91%.

Agora, o Sistema Anchieta-Imigrantes se prepara para adotar o Pedágio Eletrônico, conhecido também como Free Flow ou Siga Fácil. Com a tecnologia, câmeras, sensores e sistemas de identificação substituem a cobrança convencional nas cabines, permitindo que os veículos passem pelos pontos de cobrança sem parar.

A modernização promete mais fluidez e comodidade.

Mas também levanta uma pergunta que interessa diretamente ao bolso de milhões de motoristas:

se a cobrança será automatizada, o novo sistema ficará mais barato para operar? E, se houver economia, por que ela não poderá chegar à tarifa paga pelo usuário?

O São Paulo Agora encaminhou uma série de questionamentos à Ecovias Imigrantes para tentar responder a essas perguntas.

A concessionária respondeu à reportagem, mas não apresentou os valores necessários para comparar financeiramente os dois modelos.

Ecovias diz que Free Flow não significa necessariamente redução de custos

Questionada pela reportagem, a Ecovias afirmou que a substituição das praças físicas pelos pórticos eletrônicos “não representa, necessariamente, redução dos custos operacionais da concessão”.

Segundo a empresa, embora deixe de existir a operação convencional das cabines, o novo modelo também gera despesas.

“A implantação do Pedágio Eletrônico no Sistema Anchieta-Imigrantes faz parte do processo de modernização da concessão e tem como principais objetivos eliminar a necessidade de parada nas praças de pedágio, melhorar a fluidez do tráfego e aprimorar a experiência dos usuários”, informou a concessionária.

A Ecovias acrescentou que o sistema eletrônico demanda “investimentos em tecnologia e equipes para operação, monitoramento, validação e manutenção do sistema”.

O argumento é relevante: automatizar a cobrança não significa operar de graça.

Pórticos precisam de equipamentos, câmeras, sistemas informatizados, processamento de dados, telecomunicações, manutenção e equipes especializadas.

Mas as praças convencionais também têm custos.

E é justamente aí que permanece a principal dúvida.

Quanto custa cada sistema?

O São Paulo Agora perguntou à Ecovias qual é o custo anual atual para operar as praças físicas do Sistema Anchieta-Imigrantes e qual será o custo anual estimado para manter o Pedágio Eletrônico.

Também questionou qual seria a economia anual esperada com a mudança, caso ela exista, e solicitou informações sobre o investimento realizado na implantação do Free Flow.

A concessionária não apresentou esses valores na resposta enviada à reportagem.

Sem os números, não é possível verificar se a nova operação será mais barata, mais cara ou terá custo semelhante ao modelo convencional.

A diferença é fundamental.

Não basta saber que o sistema eletrônico também custa dinheiro. Para avaliar o impacto econômico da modernização, seria necessário comparar quanto se gasta hoje e quanto será gasto depois.

E essa comparação não foi fornecida.

TCU já identificou economia com Free Flow em outras concessões

A dúvida sobre eventual redução de custos não é apenas teórica.

Análises realizadas pelo Tribunal de Contas da União em outras concessões rodoviárias já identificaram economias associadas à substituição de estruturas convencionais por sistemas de livre passagem.

Entre os custos que podem deixar de existir ou diminuir estão despesas relacionadas à construção e manutenção da infraestrutura das praças, operadores de caixa, segurança, transporte de valores e outras atividades ligadas à arrecadação presencial.

Isso não significa que os mesmos valores ou percentuais possam ser automaticamente aplicados ao Sistema Anchieta-Imigrantes.

Cada concessão possui contrato, estrutura operacional, fluxo de veículos e obrigações diferentes.

Também existem despesas específicas do Free Flow, além do risco de inadimplência de motoristas que passam pelos pórticos sem tag e não realizam posteriormente o pagamento.

Portanto, seria precipitado afirmar que a Ecovias necessariamente terá uma grande redução de custos.

Mas justamente por isso os números são importantes.

Somente a comparação entre o custo das praças e o custo do Pedágio Eletrônico permitiria saber qual será o efeito financeiro real da mudança.

Funcionários serão capacitados e Ecovias diz que não prevê demissões

Outro ponto esclarecido pela concessionária envolve os trabalhadores que atualmente atuam nas praças.

A Ecovias informou ao São Paulo Agora que os profissionais foram convidados a participar de programas de capacitação e treinamento para assumir novas atividades relacionadas ao Pedágio Eletrônico.

“Neste momento, não há previsão de desligamentos de equipes em razão da implantação”, afirmou a empresa.

A informação é importante porque impede concluir que a automatização produzirá imediatamente uma grande economia com redução de pessoal.

Por outro lado, a concessionária também não informou quantos profissionais trabalham atualmente diretamente na arrecadação, quantos serão transferidos para as novas funções nem qual será o impacto financeiro dessa reorganização.

A pergunta sobre os custos, portanto, permanece.

Motorista terá cobrança dividida entre descida e subida

A implantação do Pedágio Eletrônico também mudará uma característica histórica da cobrança no Sistema Anchieta-Imigrantes.

Atualmente, os R$ 40,60 são cobrados na descida para o litoral.

Com o novo sistema, o valor será dividido entre os dois sentidos.

Pelo modelo homologado antes do adiamento da implantação, serão R$ 20,30 na descida e R$ 20,30 na subida.

Isso significa que quem fizer apenas um dos deslocamentos sujeitos à cobrança pagará somente a tarifa correspondente àquele sentido.

Já para o motorista que fizer o percurso completo sujeito às duas cobranças, o total continuará em R$ 40,60.

Portanto, a divisão da tarifa não deve ser confundida com redução do preço total.

Por que o pedágio não fica mais barato?

À reportagem, a Ecovias explicou que o preço cobrado do motorista não é determinado exclusivamente pelo custo da arrecadação.

“O valor da tarifa considera as premissas previstas no contrato de concessão, que abrangem, entre outros aspectos, os investimentos realizados, a manutenção e conservação da infraestrutura e os serviços prestados aos usuários”, informou.

A explicação ajuda a entender por que retirar as cabines não significa automaticamente reduzir o pedágio.

O Sistema Anchieta-Imigrantes é uma concessão antiga. O contrato teve início em 1998 e envolve 180,9 quilômetros de rodovias. Dados da Artesp apontam R$ 9,4 bilhões em investimentos, considerando a referência de 2024.

Mas explicar que existem outros custos não elimina a necessidade de transparência sobre a arrecadação.

Se o custo de cobrar o pedágio representa apenas uma parcela da tarifa, é possível perguntar:

qual é o tamanho dessa parcela?

E, caso ela diminua com a automatização:

o que acontecerá com essa economia?

O pedágio mais caro do Brasil

A discussão ganha ainda mais peso diante do valor pago pelo motorista.

Com o reajuste de julho, a tarifa da Anchieta-Imigrantes passou de R$ 38,70 para R$ 40,60 e continua sendo apontada como a mais cara do Brasil em valor nominal para veículos de passeio.

É importante fazer uma ressalva: comparar pedágios apenas pelo valor cobrado não significa necessariamente determinar qual rodovia possui o maior custo proporcional por quilômetro.

Rodovias têm extensões, estruturas, investimentos e modelos contratuais diferentes.

Mesmo assim, para o motorista que precisa desembolsar R$ 40,60 de uma vez, a liderança do ranking nominal está longe de ser irrelevante.

E a tarifa aumentou justamente em 2026, ano em que a concessionária prepara a automatização da arrecadação.

Modernização precisa beneficiar também o usuário

O Free Flow representa um avanço tecnológico.

Eliminar as cancelas reduz paradas e tende a melhorar a circulação, especialmente em períodos de grande movimento.

A tecnologia também está avançando rapidamente pelo país. O modelo já está presente em diversas rodovias brasileiras e tende a substituir progressivamente as praças convencionais.

Mas modernizar uma concessão não deveria significar apenas trocar a maneira como o dinheiro é arrecadado.

Deveria significar também aumentar eficiência e transparência.

Se a nova tecnologia custar menos que a operação atual, é legítimo discutir de que maneira esse ganho será tratado dentro do contrato.

Se custar mais, também é legítimo que a concessionária demonstre isso.

E se os custos forem praticamente iguais, os números poderiam encerrar a discussão.

O problema é que eles não foram apresentados.

Free Flow ainda não tem data para começar

Apesar dos preparativos, o Pedágio Eletrônico ainda não tem uma nova data definida para entrar em operação no Sistema Anchieta-Imigrantes.

A cobrança estava inicialmente prevista para começar em 1º de agosto.

Antes da estreia, porém, o início da operação foi adiado após a determinação de que o ponto de cobrança da Rodovia dos Imigrantes no sentido Capital fosse instalado após o km 38, preservando deslocamentos locais.

A estrutura que havia sido instalada no km 29 permanecerá no local para monitoramento do tráfego.

Em resposta ao São Paulo Agora, a Ecovias informou que continua estudando uma nova localização para o pórtico.

“Assim que houver definição sobre o início da operação do Pedágio Eletrônico, a data será comunicada”, afirmou.

Até lá, a cobrança permanece normalmente nas atuais praças físicas.

Uma pergunta de R$ 40,60

A Ecovias tem razão ao afirmar que tecnologia não significa custo zero.

Também é correto dizer que o pedágio remunera muito mais do que funcionários dentro de cabines. Existem conservação, manutenção, atendimento ao usuário, obras, equipamentos e diversas outras obrigações previstas na concessão.

Mas nenhuma dessas explicações responde completamente à questão levantada pela reportagem.

Quanto custa cobrar o pedágio hoje e quanto custará cobrar amanhã?

A concessionária teve a oportunidade de apresentar essa comparação e não informou os valores.

Por isso, não é possível afirmar que o Free Flow reduzirá os custos da Ecovias.

Mas também não é possível concluir, com base nas informações apresentadas pela empresa, que não haverá economia.

Quando se trata da tarifa nominal mais cara do Brasil para veículos de passeio, essa diferença não deveria permanecer desconhecida.

Se a tecnologia trouxer economia, o motorista merece saber quanto.

E, sobretudo, merece saber se algum centavo dessa eficiência chegará aos R$ 40,60 que saem do seu bolso.

Leia a íntegra da resposta da Ecovias

Procurada pelo São Paulo Agora, a Ecovias Imigrantes respondeu aos questionamentos encaminhados pela reportagem sobre os custos da implantação do Pedágio Eletrônico, a situação dos funcionários das praças e os impactos da mudança sobre a tarifa. A manifestação abaixo é reproduzida na íntegra:

A Ecovias Imigrantes informa que a implantação do Pedágio Eletrônico no Sistema Anchieta-Imigrantes faz parte do processo de modernização da concessão e tem como principais objetivos eliminar a necessidade de parada nas praças de pedágio, melhorar a fluidez do tráfego e aprimorar a experiência dos usuários.

A substituição das praças físicas por pórticos eletrônicos não representa, necessariamente, redução dos custos operacionais da concessão. Embora deixe de existir a operação convencional nas cabines, o novo modelo demanda investimentos em tecnologia e equipes para operação, monitoramento, validação e manutenção do sistema.

Os profissionais que atualmente atuam nas praças de pedágio foram convidados para programas de capacitação e treinamento para novas atividades relacionadas à operação do Pedágio Eletrônico e, neste momento, não há previsão de desligamentos de equipes em razão da implantação.

A implantação do Pedágio Eletrônico altera a forma de cobrança realizada atualmente. O valor da tarifa será dividido entre a descida e a subida da serra. Dessa forma, o usuário paga a tarifa apenas no sentido em que estiver trafegando. Vale lembrar que o valor da tarifa considera as premissas previstas no contrato de concessão, que abrangem, entre outros aspectos, os investimentos realizados, a manutenção e conservação da infraestrutura e os serviços prestados aos usuários.

Importante reforçar que, por enquanto, a cobrança permanece normalmente nas praças físicas. No momento, a Ecovias Imigrantes estuda uma nova localização para o pórtico da pista norte, sentido Capital, da rodovia dos Imigrantes. Assim que houver definição sobre o início da operação do Pedágio Eletrônico, a data será comunicada.

Nivaldo Lima

Nivaldo Lima é jornalista com 31 anos de experiência, especializado na cobertura de política, segurança pública, trânsito e cotidiano.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Leia também

Botão Voltar ao topo
Fechar

Bloqueador de anúncios

Não bloqueie os anúncios